Caminhando no escuro: você corre perigo!

Caminho pelas ruas de São Paulo em busca de algo para se fazer, já é madrugada e está frio. E justamente por isso, não há ninguém por essas ruas, a não ser eu. Você deve estar se perguntando o que um homem como eu está fazendo sozinho a essas horas. Bem, perguntaria se eu fosse mulher. Enfim, já me acostumei a caminhar solitário por esse bairro que nem é tão seguro quanto se pensa, ainda mais para mim, jovem de estatura mediana, 25 anos, classe média, moreno, boas roupas e muito asseado.

Sem me importar com toda essa baboseira de ser ou não atacado ou roubado, continuo caminhando como todas as noites. Desde aquela vez, não consigo ver outra forma de passar minhas noites. O que eu poderia fazer? Dormir? Estava fora de cogitação. Descansar? Muito menos. Embora eu trabalhasse o dia todo, em um bom emprego inclusive. Era gerente de um hospital psiquiátrico e gostava bastante do que fazia. Porém, minhas noites exigiam muito mais de mim do que o dia, sentia que tinha uma missão, um dever, precisava fazer aquilo, até me sentir completo, só depois de feito é que eu poderia ir para casa dormir como um bebê.

Perdido nesses pensamentos, reparo uma mulher caminhando mais a frente de mim, era atraente, alta, loira e tinha um andar apressado, afinal, nada de bom aconteceria com ela andando nas ruas a essas horas.

Olhei mais uma vez para ela e pensei: “ Essa é a hora”. E comecei os trabalhos da noite, continuei andando atrás dela, sem que ela percebesse minha presença, olhava para todos os lados para me certificar de que ninguém apareceria e assim continuei, acompanhava-a por aquele longo trajeto, sempre me escondendo para não ser visto, estava quase chegando no que deveria ser a casa dela, perto de completar minha missão, quando ela finalmente chegou, entrou em sua casa e fechou a sua porta, minha missão estava cumprida, sabia onde era sua casa, sabia seu caminho. Dei meia volta, para continuar minha missão, a alguns quarteirões a frente observei uma jovem de estatura baixa, morena e com um olhar infantil, estava correndo assustada, com os olhos arregalados, quando olhei para o fim da rua, dois jovens estavam correndo atrás dela, chamando-a por diversos nomes bem vulgares, nada de bom poderia sair dali. Parei em frente aos dois rapazes, pedindo para parassem, enquanto agarrei um pelo pescoço, dei um chute forte no outro que caiu no chão, eles logo me perguntaram:

– O que você quer??? Não vê que estamos ocupados?

– Essa não! Ela é minha! – falei para que eles logo entendessem o recado.

Os dois se olhavam assustados, percebendo de quem eu me tratava. Assentiram com a cabeça, levantaram e foram embora.

Depois de me livrar dos dois panacas, fui atrás da garota, precisava continuar com as minhas tarefas. Andei por algumas ruas, sem sinal dela, até que a vi sair correndo de trás de um carro, fui atrás dela, tentei não ser visto, mas não adiantou, assustada como estava, olhou para trás e me viu, soltou um grito histérico e pedia socorro:

– Por favor, não me machuque, já tive muitos problemas essa noite! – ela dizia em meio ao choro.

E eu, irredutível como sempre fui, me aproximei dela devagar, enquanto a via chorar, sorria, cheguei perto dela, que estava trêmula, morrendo de medo, então resolvi finalmente acabar com aquilo, cheguei mais perto e a abracei:

– Calma criança, seu sofrimento acabou, estou aqui com você. Venha, vou leva-la para casa. – disse eu, tentando lhe passar segurança.

– Espere, você não veio atrás de mim como aqueles homens? Por que está fazendo isso? – ela disse sem acreditar.

– Claro que não. Estou aqui para protegê-la. Venha.

Ela agradeceu e deixou que eu a acompanhasse. Fomos andando sem dizer nenhuma palavra, até que chegarmos a porta de sua casa, me despedi, me certifiquei de que estava em segurança e resolvi finalmente voltar para casa, agora poderia dormir com mais tranquilidade.

Acredito que quem me visse a essas horas da madrugada andando pelas ruas, atrás de jovens mulheres poderia pensar coisas bastante cruéis a meu respeito. Contudo, como nem tudo é o que parece, estou aqui para provar ao contrário, você deve estar curioso para saber o porquê disso tudo. Enquanto diversos homens resolvem tratar as mulheres como objetos, subjuga-las, maltratá-las e persegui-las, passo as noites por essas ruas para fazer exatamente ao contrário.

Faço isso porque tenho meus motivos, é claro. Meu pai morreu quando eu tinha 4 anos e nos fez prometer que iriamos cuidar uns dos outros sempre, passados alguns anos, eu já estava com 14 anos, morava com minhas duas irmãs e minha mãe, em um bairro pobre e em uma casa simples, que era o que uma mãe solteira podia pagar. Era um jovem revoltado naquela época, que não aceitava a falta da figura paterna, talvez por ser o único menino ali, acabava sofrendo muito mais do que minhas irmãs. Saia de casa sem avisar, passava a noite fora, desobedecia minha mãe em tudo que ela dizia, fazia a vida de todos um inferno. Até que certa noite, eu saí de casa e sumi por dois dias com uns amigos, minha mãe preocupada foi me procurar nas ruas de madrugada, ela não tinha medo, só queria seu filho de volta, mas mesmo assim, não foi o suficiente, ela encontrou dois homens na rua, que a perseguiram e a espancaram, eu a encontrei desacordada na calçada e a levei rapidamente ao hospital, por sorte, ela se recuperou logo para meu alívio, pedi milhões de desculpas para ela e jurei nunca fazer aquilo novamente.

Fomos para casa e para meu desespero, as tragédias não acabavam por ai, enquanto minhas duas irmãs estavam sozinhas em casa, alguém as chamou a porta, quando elas viram que era um homem, pensaram ser eu, minha irmã mais velha foi atender e uma homem simplesmente a colocou em um carro e a levou, deixando minha irmã mais nova sozinha em casa, chorando muito.

Nunca mais tive notícias de minha irmã, contatamos a polícia, procuramos pelo bairro por meses, mas até hoje nenhuma notícia boa. Esse fato, me enche de culpa e me corrói todos os dias, pois eu não cumpri a promessa de meu pai, as deixei vulneráveis, enquanto elas mantinham o trato com meu pai. Após esse dia, percebi o quanto pode ser difícil ser mulher nesse mundo cruel, com tantos homens grotescos que não respeitam, enquanto, no caso de minha família, elas só estavam protegendo quem amavam. Jurei fazer de tudo para proteger as mulheres desse mundo, custe o que custar, por isso, saio por essas ruas de madrugadas, tentando levar o máximo possível de garotas em segurança para casa, fingindo ser pior do que os homens que a perseguem, para que eles as deixem em paz, pois uma delas pode ser mãe, irmã, filha ou amiga de alguém e merecem viver livremente longe desse terror que é ser mulher algumas vezes.

Talvez o que eu faço seja mínimo, seja quase nada, mas enquanto houver mulheres que precisem ir em segurança para casa, eu estarei acordado e andando pelas ruas na madrugada.

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