Os cães sabem quando há algo errado – parte 2

Os passos continuam lá fora. E meu coração fica cada vez mais acelerado. Rezo baixinho para que Tobias não resolva acordar logo agora fazendo um escândalo.

Ouço mais um ruído estranho lá fora. Parecem… chaves? A pessoa parece estar procurando a correta. A porta não para de vibrar. Seja quem for, está tentando abrir a porta.

O pavor vai tomando conta de mim. Isso me faz lembrar do olhar de reprovação do meu pai quando eu disse que iria morar sozinha:

– Numa casa, Nayara? Por que não aluga um apartamento? É mais seguro, tem condomínio e tudo.

– Pai, detesto me sentir presa. E o custo do condomínio é muito alto para um lugar que nem quintal tem…

Parece que ele estava certo afinal. Uma mulher morar sozinha numa casa é perigoso. E agora estou nesses poucos minutos de desespero, sem a mínima ideia do que fazer.

Mesmo assim, decido agir. Devagar, me levanto sem fazer barulho e tentando não acordar Tobias. Pego meu celular e vou até a cozinha. Procuro uma faca ou qualquer coisa que possa usar para me defender. Encontro uma peixeira e a carrego comigo, enquanto ligo para a polícia.

Falo bem baixinho e relato o ocorrido. Eles pedem o meu endereço e falam que estão a caminho. Não tenho tanta certeza disso, por isso procuro outras formas de sair daquela situação. 

Quem quer que esteja na porta não desiste e continua tentando abri-la. Ele profere alguns xingamentos enquanto faz isso. Fico ainda mais aterrorizada. 

Faz um ano que moro aqui. Um ano exato hoje. E parece que o destino arranjou uma ótima forma para comemorar.

Click. Esse é o barulho que minha porta faz quando é aberta. E é exatamente esse barulho que ouvi agora. Começo a rezar. Não sei o que vai me acontecer, mas provavelmente não é bom.

Estou na cozinha, escondida ao lado do fogão. Não tenho para onde correr, a casa não é muito grande. Então, fico ali só esperando o pior me acontecer.

Ouço o homem entrando em minha sala. Ele acende a luz da sala, vai andando em direção a cozinha e acende a luz também.

Começo a tremer de medo. Não vai demorar até que ele me encontre. E ele vai, com certeza.

Despreocupadamente, ele começa a se aproximar do fogão. Ele assovia e vai chegando perto. Que brincadeira doentia é essa?

Fico ali temerosa, quando ele finalmente chega ao meu campo de visão. Um homem alto, negro e magro. Aparentando ter seus 50 anos.

Ele também me olha e, inesperadamente, dá um grito assustado. Eu, sem pensar, salto do lado do fogão e grito também.

Ficamos um tempo nessa brincadeira até que ele para e me encara espantado, como se não soubesse o que eu estava fazendo ali.

Ele não diz nada. Por isso, tomo coragem e pergunto:

– O que está fazendo aqui? Quem é você?

Mais confuso ainda, ele me olha espantado e responde:

– O que? Eu moro aqui!

Continua…

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