Os cães sabem quando há algo errado – parte 3

Eu não sabia o que dizer. Morava ali fazia um ano e nunca soube quem era o antigo proprietário. Comprei esta casa diretamente com o corretor e de forma totalmente correta.

Mas, segundo aquele homem, ele também era o dono. Seja lá o que isso significasse, precisávamos esclarecer tudo.

Ele estava calado, encolhido num canto,  tentando se situar. Não aparentava oferecer grande ameaça. Mesmo assim, precisava averiguar aquela história. Logo perguntei:

– Mas se você é o dono desta casa,  onde estava nesse último ano? Por que não apareceu antes?

O homem, que parecia bem cansado, me respondeu:

– Olha, eu não sei bem. Mas parece que estou há mais de um ano fora. Está tudo tão diferente, parece que anos se passaram. Certo dia acordei em uma sala escura, de um depósito que eu trabalhava. Estava tudo vazio, o que eu estranhei, pois lugar era 24 horas. Tentei buscar ajuda, mas ninguém nunca aparecia.

– E como conseguiu sair de lá?

– Para falar a verdade ainda não sei como sobrevivi… Fiquei lá esperando ajuda, até que dias atrás consegui sair, mas não lembrava do caminho de casa. Fui recobrando a consciência, até lembrar como chegar aqui, minha casa – disse ele desnorteado.

Não sei se era verdade o que ele dizia, mas cheguei a sentir pena dele. Por isso, procurei ser amigável enquanto não resolvíamos a situação:

– Bem, acho que agora está um pouco tarde para resolvermos qualquer coisa. Você afirma que esta casa é sua e eu também, pois a comprei faz um ano. Então, enquanto isso, posso te ceder meu sofá para que possa descansar e amanhã de manhã resolvemos isso, o que acha?

– Eu fico muito agradecido. Ainda estou um pouco confuso. Dormir vai ser bom. E esta é realmente a hora que eu costumava chegar em casa.

Sorri, sem ter mais nada a dizer. Não sabia o que pensar de tudo aquilo. Só que era tudo muito estranho. Havia muitas coincidências e muitas coisas não explicadas também. Eu precisava investigar e ter muita cautela até entender tudo.

Arrumei o sofá para ele e o deixei se acomodar. Ele agradeceu mais uma vez. Mas antes de me deitar, lembrei de fazer uma pergunta que poderia me ajudar: 

– Só por curiosidade, qual é o nome da empresa que você trabalhava?

– Eli K Distribuidora – ele respondeu.

Assenti com a cabeça. Esperei ele se deitar e, por segurança, levei a faca para meu quarto e tranquei a porta. Mandei uma mensagem para meu pai explicando o que aconteceu. De manhã ele olharia e provavelmente viria até minha casa. 

Me deitei, lembrei que tinha chamado polícia, mas nem sinal deles até aquela hora. Resolvi fazer uma pesquisa rápida antes de dormir: coloquei na busca o nome da empresa que ele me passou. Mas quando vi o resultado não acreditei…

A Eli K Distribuidora não existia mais. Há quatro anos, durante a madrugada, um incêndio tomou conta do galpão e o destruiu por completo.

Sem dinheiro para recuperar o que foi perdido, o dono abriu falência. Naquela noite, seis funcionários que estavam trabalhando morreram queimados.

Cliquei para ver o obituário, no qual apareceram as fotos das vítimas. Dei um grito de horror quando vi que, dentre elas, estava o homem que agora dormia em minha sala.

Continua…

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